O Rio que some e o Rio que assusta: como a mídia decide quem aparece no noticiário
Bairros da Zona Oeste vivem no apagão informativo, enquanto o Centro e a Zona Sul enfrentam a superexposição marcada por estigmas e notícias de crise
(Isabelle Medeiros)
Joana Rocha acorda às 5h30. Antes do sol nascer, ela já está de pé, arrumando as mercadorias que vai vender no trem das seis, sentido Central do Brasil. Sai de Paciência, extremo da Zona Oeste do Rio de Janeiro, com o carrinho cheio de balas, chocolates e água mineral. A rotina é sempre a mesma: no vagão lotado, ela disputa espaço com outros vendedores ambulantes. Sabe que, naquele percurso, poucos reparam nela. Assim como poucos reparam no bairro onde ela mora.
"A gente só vira notícia quando tem alguma coisa ruim. Quando tem tiro, assalto, acidente... mas quando é o dia a dia, ninguém lembra que a gente existe", diz Joana, ajeitando o cabelo atrás da orelha enquanto atende um cliente na estação. Ela não sabe explicar exatamente o porquê, mas sente na pele o efeito de morar num lugar invisível para os jornais e os telejornais. "É como se o bairro não fosse parte da cidade", complementa. Paciência, junto com Sepetiba e Cosmos, forma um dos maiores aglomerados populacionais da Zona Oeste carioca. Só Paciência tem mais de 94 mil habitantes, segundo o IBGE. Mas mesmo com essa população toda, os bairros praticamente não aparecem na cobertura diária dos principais jornais e portais de notícias do Rio. A percepção de Joana não é só impressão. Um levantamento feito pelo projeto Atlas da Notícia, desenvolvido pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), aponta que boa parte da Zona Oeste do Rio está dentro do que os pesquisadores chamam de "desertos de notícia": territórios com escassa ou nenhuma cobertura jornalística regular.’
O Atlas da Notícia (6ª edição, 2023) revela que o estado do Rio de Janeiro tem o menor percentual de desertos em todo o Brasil. Apenas sete municípios ainda não têm nenhum veículo de imprensa local — um número que subiu em relação a 2022, quando eram quatro. No entanto, quando analisamos a cidade do Rio, vemos que enquanto setores como a Zona Sul e o Centro concentram redações e atenção midiática, a Zona Oeste, embora albergue cerca de dois milhões de pessoas e represente 74% do território municipal, permanece amplamente invisível ao olhar da grande imprensa.
(Foto: Reprodução/Wikimedia Commons / Rodrigo Soldon)
“A concentração geográfica da produção jornalística reflete um problema estrutural do mercado de mídia brasileiro, que privilegia as regiões centrais e de maior poder econômico, deixando de lado áreas periféricas e menos valorizadas”, avalia a pesquisadora de Comunicação Social e especialista em Mídia Urbana, Mariana Silva, ex-professora da UFF e autora do estudo Cobertura Midiática e Desigualdade Territorial no Rio de Janeiro (2023).
Essa lógica de cobertura cria dois efeitos opostos, mas igualmente prejudiciais. De um lado, bairros como os de Joana vivem no silêncio informativo, sem espaço para pautas que retratam a vida cotidiana, os problemas de infraestrutura, os projetos comunitários ou os feitos culturais locais. De outro, regiões como Copacabana, Cinelândia e Botafogo acabam sob holofotes quase permanentes, mas com um tipo de visibilidade que muitas vezes reforça estigmas.
Vinícius Fernandes, de 36 anos, psicólogo e morador de Botafogo, percebe isso no próprio cotidiano. "Tem vezes que você abre o jornal ou a TV e parece que o bairro virou um retrato da degradação. As pessoas só veem Botafogo hoje como um problema social, um ponto de encontro de usuários de drogas. É óbvio que existem questões, mas ninguém fala das outras coisas que acontecem aqui. Só daquilo que choca", relata. Na Cinelândia, a assistente social Amanda Lima, 30, faz coro. Ela trabalha com pessoas em situação de rua e critica a forma como a mídia costuma tratar o centro da cidade. "Eles só aparecem para mostrar o caos, a crise e o abandono. Mas não contam o resto: que aqui tem gente resistindo, tem projeto social, tem arte, tem cultura acontecendo todo dia", diz. Esse desequilíbrio na cobertura está para além de um problema apenas de escolha editorial. Ele tem efeitos concretos na vida de quem mora nessas regiões. Bairros invisíveis enfrentam mais dificuldade para ter suas demandas atendidas pelo poder público. Sem notícias circulando, a pressão social diminui e as prioridades de investimento se deslocam para as áreas mais visíveis. Já os bairros superexpostos, quando retratados apenas pela ótica do problema, sofrem com a construção de estigmas difíceis de reverter.
"Quando um território só aparece na mídia ligado à violência ou crise social, isso vira um rótulo", explica a pesquisadora em Comunicação Urbana e Representações Sociais na Universidade Nacional de Rosario (UNR), Mariana López Gutiérrez. A história de Joana, os dados do Atlas e os relatos de quem vive dos dois lados desse desequilíbrio expõem uma dinâmica antiga, mas ainda pouco debatida: a desigualdade na distribuição de atenção midiática no Rio de Janeiro. Uma geografia simbólica que vai muito além da geografia física.
(Foto: Isabelle Medeiros)
"Quando um território só aparece na mídia ligado à violência ou crise social, isso vira um rótulo", explica a pesquisadora em Comunicação Urbana e Representações Sociais na Universidade Nacional de Rosario (UNR), Mariana López Gutiérrez. A história de Joana, os dados do Atlas e os relatos de quem vive dos dois lados desse desequilíbrio expõem uma dinâmica antiga, mas ainda pouco debatida: a desigualdade na distribuição de atenção midiática no Rio de Janeiro. Uma geografia simbólica que vai muito além da geografia física."
O mapa da invisibilidade
Em 2023, a sexta edição do Atlas da Notícia apontou que o número de municípios brasileiros sem qualquer veículo jornalístico caiu cerca de 8,6% em relação a 2022, o equivalente a 256 cidades que deixaram de ser “desertos de notícia”. Ainda assim, 2.712 cidades seguem sem cobertura profissional local: cerca de 26,7 milhões de brasileiros afetados. No país todo, mais da metade dos municípios ainda está nessa condição. Mas o foco aqui é especificamente o Rio de Janeiro. Na Zona Oeste, bairros como Paciência, Cosmos e Sepetiba somam cerca de 230 mil moradores, segundo o último censo do IBGE. Apesar da relevância demográfica, esses territórios vivem um cenário de certa invisibilidade midiática.
Foto: Isabelle Medeiros
O Atlas da Notícia classifica áreas com escassez crônica de cobertura jornalística como “desertos informativos”, conceito que, na prática, significa viver em regiões onde a imprensa raramente chega para retratar o cotidiano, as demandas locais ou mesmo as iniciativas positivas.
Para entender essa dinâmica, basta olhar os dados do Atlas somados ao IBGE:
- • Zona Oeste ocupa cerca de 74% da área da cidade, mas concentra apenas uma fração das sedes de redações.
- • Mesmo com populações que somam centenas de milhares em cada bairro, muitos continuam fora da agenda cotidiana da mídia.
É esse cenário que transforma a indústria jornalística em agente ativo da invisibilidade urbana: a falta de cobertura vigorosa reforça estigmas, dificulta reivindicações públicas e contribui para o apagamento simbólico dessas comunidades no campo da política e da memória coletiva.
Quando a notícia não chega
Às 7h de uma terça-feira, Cosmos desperta sob o canto dos sabiás e o burburinho de ônibus lotados. O entregador Caio Martins, de 23 anos, desce do trem e caminha pelas calçadas: “todo dia é essa história. A correria é tanta que a gente nem percebe se alguém está prestando atenção no que aqui acontece.” Em Cosmos, bairro da Zona Oeste com cerca de 17.000 habitantes, Caio vive de um serviço invisível aos olhos da imprensa.
É rara a vez em que uma câmera ou repórter se volta para algo positivo ali. Os poucos registros sobre o bairro, geralmente em portais regionais, acompanham notícias de enchentes ou problemas no transporte. Um levantamento preliminar por palavra-chave no Google Notícias mostra que, nos últimos seis meses, termos como “Cosmos” aparecem quase exclusivamente em reportagens de tragédias ou falhas em serviços públicos. Algo semelhante acontece em Sepetiba, onde a professora Eliane Santos, de 52 anos, ensina em uma escola municipal. Ali, com cerca de 94 mil moradores — muitos vindos de Santa Cruz, onde morou por décadas — a realidade cotidiana é quase invisível para os meios tradicionais. “Às vezes nem quando tem problema de trânsito ou uma obra parada, aparece no jornal. Mas tiro? Polícia invadindo favela? Por aqui é só a parte ruim”, diz Eliane. Na Zona Oeste do Rio, os bairros de Paciência, Cosmos e Sepetiba juntos, somam cerca de 25 escolas públicas (entre municipais e estaduais), contam com ciclovias externas — sobretudo em Cosmos — e abrigam uma estação ferroviária centenária em Paciência, inaugurada em 1897 e ainda operada pela SuperVia.
No entanto, apesar dessa significativa estrutura e densidade populacional, em termos midiáticos, esses bairros registram uma baixa presença na grande imprensa do Rio. Sem cobertura regular, as demandas por investimentos públicos em saneamento, transporte ou cultura perdem força. A ausência de notícias diminui a pressão social por melhorias, deixando esses bairros ainda mais vulneráveis ao descaso. Além disso, o estigma se reforça quando o bairro só aparece no noticiário vinculado a problemas, criando a ideia de que ali só existe caos e violência. Um caso emblemático é o projeto de saneamento que envolveu a região de Paciência e Sepetiba governado pela concessionária Zona Oeste Mais Saneamento, responsável por atender 23 bairros e 1,7 milhão de pessoas. Apesar da relevância social e ambiental, quase não foi tema de matérias aprofundadas, exceto em relatórios técnicos ou cadernos regionais.
Nos bastidores, repórteres de grandes veículos justificam a pouca atenção alegando falta de pautas “interessantes” ou o custo de deslocamento. Mas para moradores, a narrativa é outra. Eliane ressalta que, se algo em Paciência vira notícia, só acontece quando atinge níveis de crise: “É como se a normalidade não existisse”, fala.
Superexposição e estigmatização
Às 19h de uma quarta-feira, o burburinho de um bar em Copacabana é interrompido por sirenes distantes. Duda Fresa, turista acostumada a viagens internacionais, não segura o celular: por precaução, registra a cena à distância. No mesmo momento, a televisão do bar exibe imagens de moradores acorrentando caixas de som — tentativa de diminuir furtos, num cenário que virou manchete no jornal Folha: “Caixa de som presa com corrente para evitar ser levada…”
(Reprodução / Revista Cenarium)
Por momentos, Copacabana parece sitiada, embora ali corram crianças, cinegrafistas, vendedores e professores. Mas a narrativa dominante insiste: o bairro virou palco do caos. Em 6 de dezembro de 2023, outro recorte dessa narrativa viralizou. A Folha publicou: “Copacabana virou um ponto de guerra, diz moradora do bairro”.
As imagens retratavam grupos armados de postes e tacos de beisebol enfrentando supostos ladrões. Uma repórter descreveu cenas de violência urbana como se fosse um campo de batalha. A capa viralizou até no mercado internacional: a Bloomberg, do Canadá, noticiou que “violência em Copacabana ganha destaque no noticiário internacional”.
O sociólogo e pesquisador Eduardo Matos, especialista em mídia e imaginário urbano, compara a cobertura desequilibrada a um espelho distorcido: “Quando a mídia foca repetidamente em aspectos negativos e sensacionalistas, ela não apenas reflete, mas ajuda a construir uma percepção social que muitas vezes está distante da realidade vivida pelos moradores”, afirma.
O padrão está instituído. Enquanto Paciência, Cosmos, Sepetiba mal aparecem nos jornais, a Zona Sul respira e exala notícias, mas quase sempre em tons alarmistas. Os efeitos simbólicos são tão poderosos quanto palpáveis: a autoestima de moradores, a confiança de visitantes, os reflexos no comércio, o clima que se instala na cidade.
O Peso de Não Ser Notícia
A mídia, por si só constrói imagens, cria estigmas e pode influenciar o destino de bairros inteiros. Lívia Montenegro, jornalista e coordenadora do Instituto de Estudos sobre Mídia e Sociedade (IEMS) explica: “A mídia tem um papel crucial na construção do que chamamos de ‘territórios simbólicos’ e a ausência de cobertura é como um apagão simbólico”, resume. “Quando não existimos no noticiário, nossa voz perde força na cena pública e nossas demandas deixam de ser ouvidas.”, complementa.
Foto: Isabelle Medeiros
A mídia, por si só constrói imagens, cria estigmas e pode influenciar o destino de bairros inteiros. Lívia Montenegro, jornalista e coordenadora do Instituto de Estudos sobre Mídia e Sociedade (IEMS) explica: “A mídia tem um papel crucial na construção do que chamamos de ‘territórios simbólicos’ e a ausência de cobertura é como um apagão simbólico”, resume. “Quando não existimos no noticiário, nossa voz perde força na cena pública e nossas demandas deixam de ser ouvidas.”, complementa.
Esse apagamento traz consequências reais. O IBGE, em seus últimos dados demográficos, aponta que áreas com pouca visibilidade na imprensa tradicional têm maior dificuldade de acesso a políticas públicas, investimentos e serviços sociais. Joana Rocha, moradora de Paciência, relata o impacto: “Quando dizem que aqui não tem nada, que é perigoso ou esquecido, fica difícil pra gente conseguir emprego ou até melhorar a nossa vida. Parece que o resto da cidade esquece da gente”, lamenta. A desigualdade na cobertura alimenta preconceitos e reforça ciclos de exclusão. Quando uma região é vista só como lugar de problema, moradores acabam internalizando esse olhar.
Além disso, o discurso midiático tem poder para influenciar políticas públicas. A pesquisadora Mariana Gutiérrez destaca que “regiões com forte presença na imprensa recebem mais atenção governamental, muitas vezes focadas em medidas de segurança e repressão. Enquanto isso, os bairros invisíveis ficam fora do radar, recebendo menos recursos para saúde, educação e infraestrutura.” Esse ciclo alimenta a segregação urbana e aprofunda desigualdades históricas. A falta de diversidade nas narrativas e o domínio da agenda pela grande mídia limitam a pluralidade democrática. “A comunicação deve ser um direito de todos, não um privilégio de alguns”, conclui a jornalista Lívia.