Mapeando o Silêncio: os Caminhos do Atlas da Notícia no Combate aos Desertos Informativos
Ferramenta criada pelo Projor revela vazios de informação no Brasil, fortalece o jornalismo local e impulsiona iniciativas comunitárias, acadêmicas e políticas
(Isabelle Medeiros)
Existem regiões no Brasil onde ninguém cobre uma enchente, uma eleição ou o aumento do preço da passagem; onde a sessão da câmara passa em branco e a inauguração do hospital é apenas boato. Não por falta de interesse, mas por falta de jornalismo. São os chamados desertos de notícias, espaços em que a população vive desconectada da própria realidade local e, muitas vezes, nem sabe disso.
Em 2017, essa ausência virou objeto de um mapa. Foi quando o jornalista e pesquisador Sérgio Espagnolo, fundador do Volt Data Lab, e Ângela Pimenta, então presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) decidiram adaptar ao Brasil uma metodologia inspirada no “US News Deserts”, projeto desenvolvido pela pesquisadora Penélope Muse Abernathy na Universidade da Carolina do Norte.
“O Atlas nasceu como um esforço para mapear o vazio, e isso só é possível com colaboração local e muito pé no chão. O dado puro não basta…é preciso ouvir quem vive ali”, conta Dubes Sônego Jr., atual pesquisador responsável pela região Sudeste no projeto Atlas da Notícia.
Nos Estados Unidos, o levantamento já denunciava os efeitos do fechamento em massa de jornais locais, principalmente em cidades pequenas, onde o jornal era o único meio de conexão entre o cidadão e o poder público. O presidente do Projor e coordenador da equipe de pesquisadores do Atlas da Notícia, Sérgio Ludtke percebeu que o problema não era só nos Estados Unidos: o Brasil estava (e ainda está) coberto por lacunas invisíveis, em que a informação simplesmente não chega. Assim nasceu o Atlas da Notícia, um esforço coletivo para cartografar a presença (ou ausência) do jornalismo em todos os 5.570 municípios do país. Para além de uma base de dados, o Atlas tornou-se um instrumento de pressão e conscientização. A partir de parcerias com universidades, jornalistas locais e voluntários, o projeto foi catalogando veículos como rádios comunitárias, jornais impressos, portais digitais e organizando tudo em uma plataforma pública e interativa. Mas o que o Atlas revela não são apenas números. Ele expõe vazios democráticos, lugares em que o poder age sem ser vigiado, onde o cidadão pouco sabe do que acontece ao seu redor. Mapear esses desertos é uma forma de iluminar o que está apagado e lançar a pergunta que, até hoje, segue em aberto: quem tem o direito de ser informado no Brasil?
(Foto: Agatha Monteiro)
Mas afinal, como se mapeia a ausência?
Durante os primeiros anos, o Atlas da Notícia se baseou quase exclusivamente em bancos de dados públicos, como os do Ministério das Comunicações, a SECOM e o IBGE, que registram emissoras, empresas e veículos com algum tipo de atividade jornalística formalizada. Era um ponto de partida importante, mas ainda insuficiente. Os dados brutos diziam pouco sobre a real cobertura jornalística: um CNPJ ativo ou um registro técnico não necessariamente significava que havia ali, de fato, um jornalismo atuante, local e comprometido com a comunidade.
Foi então que os organizadores do Atlas perceberam que mapear veículos era diferente de mapear jornalismo. E mais: que certos lugares só apareceriam no mapa se alguém estivesse disposto a contar que ali não havia ninguém cobrindo nada. Era preciso ouvir pessoas, buscar fontes que não estavam nos registros oficiais, e incluir no levantamento até mesmo veículos informais, projetos independentes e pequenos jornais de bairro. “A gente começou utilizando apenas bancos de dados. Mas é muito difícil descobrir, por exemplo, se aquela rádio comunitária ainda existe e se ela faz jornalismo. Por isso a gente recorre a redes de jornalistas locais e voluntários para atualizar as informações”, explica Dubes
A metodologia, que nasceu como uma adaptação do modelo americano, foi ganhando uma cara brasileira: misturando fontes institucionais, articulação com universidades, escutas comunitárias e checagens manuais. Cada edição exigia uma maratona de contatos, formulários e cruzamento de dados. E mesmo assim, a equipe sempre sabia que algo ficaria de fora. “Existem veículos que não têm site, não estão cadastrados em lugar nenhum. Outros até têm uma página no Facebook, mas não se enquadram na categoria de jornalismo. O desafio é entender a fronteira entre o que é mídia local e o que é apenas publicação de conteúdo”, completa Dubes. Depois do seu surgimento, o apagamento da imprensa local no Brasil tem sido mapeado por outras iniciativas. Segundo um levantamento de 2022 da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), mais da metade das cidades brasileiras não conta com veículos jornalísticos locais ativos. Essa escassez se conecta diretamente à proliferação de desinformação: o Mapa da Desinformação na Amazônia Legal, por exemplo, identificou que os chamados “desertos de notícia” coincidem com áreas de baixa alfabetização midiática e alta circulação de boatos em grupos de WhatsApp. Já o relatório Trust in News, do Instituto Reuters, aponta que, apesar da desconfiança crescente em relação à grande imprensa, a população ainda valoriza o jornalismo local como fonte confiável e próxima da realidade cotidiana.
(Foto: Isabelle Medeiros)
Dados abertos e impactos reais
Apesar de lidar com dados e estatísticas, o Atlas da Notícia está para além de um instrumento técnico. Ele opera como uma ferramenta democrática ao oferecer um panorama público, gratuito e acessível sobre a presença (ou ausência) de jornalismo local no Brasil. A partir do segundo ano de existência do projeto, como explicou Dubes Sônego, o banco de dados passou a ser alimentado por um formulário com critérios detalhados, preenchido por voluntários e estudantes em parceria com pesquisadores regionais. Essas informações são validadas e, depois, tornam-se parte de uma base pública que serve de referência tanto para o meio acadêmico quanto para o mercado.
O Atlas é utilizado por mais de cem instituições acadêmicas e citado em ao menos trezentas matérias jornalísticas, mostrando sua relevância na produção de conhecimento sobre o ecossistema da mídia brasileira. No entanto, Dubes enfatiza que ele não deve ser encarado como um produto acabado ou definitivo. "É um levantamento em construção", diz.
As críticas sobre imprecisões, duplicidades e sobre o que deve ou não ser considerado jornalismo não são ignoradas, pelo contrário, alimentam o aperfeiçoamento contínuo da metodologia.
O projeto adota critérios básicos para definir o que entra ou não no banco: veículos ligados a igrejas, partidos políticos, prefeituras, câmaras, sindicatos ou associações patronais são excluídos, e é exigida produção própria de conteúdo com utilidade pública. Por exemplo, portais que se dizem jornalísticos, mas apenas veiculam notícias de terceiros, não entram no banco, como a Choquei. Além disso, surgiu a partir dele um selo de verificação com critérios de transparência, como a existência de expediente, política de correção de erros e modelo de financiamento disponível no site do veículo. Ainda assim, Dubes recusa a ideia de que o Atlas funcione como forma de denúncia. O projeto não se propõe a fiscalizar diretamente, mas a disponibilizar dados para que pesquisadores e jornalistas possam investigar a fundo os territórios e suas dinâmicas de comunicação.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa função de base investigativa é a atuação do jornal Mural – Jornalismo das Periferias. Em uma apuração sobre Pirapora do Bom Jesus, cidade próxima a São Paulo, classificada como "deserto de notícias", a Mural mostrou que o município não estava sem mídia local, como sugeria o dado cru do Atlas, mas sim com uma rádio comunitária controlada por um grupo político. A partir dessa descoberta, foi possível produzir uma reportagem que revelava uma captura tácita de um meio de comunicação, algo que o Atlas, por si só, não teria condições de apontar. O caso mostra como os dados públicos do Atlas não encerram os processos de investigação, mas os iniciam. São, ao mesmo tempo, indício e provocação. Nesse sentido, o projeto atua como dispositivo de cidadania, ao permitir que os próprios habitantes — pesquisadores, comunicadores ou estudantes — possam reconstruir narrativas sobre seus territórios e, por vezes, confrontar versões oficiais. O acesso gratuito aos dados é, portanto, um compromisso político com a ampliação da visibilidade, da escuta e da produção de conhecimento a partir das margens.
Entre ferramenta e denúncia
Apesar do potencial crítico do Atlas da Notícia, Dubes Sônego destaca que o projeto não tem como objetivo central fazer denúncias ou apontar falhas específicas do ecossistema midiático. Para ele, o Atlas é antes de tudo uma ferramenta de mapeamento e visibilidade, que permite compreender o estado do jornalismo local no Brasil. A intenção não é denunciar quem está fora dos padrões, mas reunir dados objetivos que possam ser usados por outras iniciativas que desejem se aprofundar em determinadas regiões ou contextos.
Parte expressiva dos dados vem de parcerias com universidades públicas e privadas, onde estudantes e professores colaboram com atualizações e revisões de registros. Dubes explica que há um esforço contínuo de checagem das informações, cruzando fontes como CNPJ, registro de domínio, dados do TSE e publicações oficiais. “Tem muito trabalho de formiguinha. Às vezes, um professor leva um grupo de alunos para analisar a presença ou não de jornalismo num determinado território. É assim que a gente consegue cobrir lugares que não aparecem no radar nacional”, finaliza.